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  • Foto do escritorHebert Silva Araújo

QUAL FOI O ACONTECIMENTO MAIS IMPORTANTE NO MUNDO DA MÚSICA EM 2023?

Uma retrospectiva especial em que sete especialistas de várias áreas do mercado comentam os marcos do ano que impactarão 2024 e além.


Ao longo deste intenso ano para a indústria musical (dos streamings aos festivais, da inteligência artificial aos licenciamentos, todos os segmentos parecem ter passado por sua própria revolução), conversei com dezenas desses profissionais: de artistas a CEOs, de analistas de mercado a produtores de estúdio, de advogados especializados em direitos autorais a críticos musicais. 

Para fechar 2023, resolvi, então, convidar 7 desses especialistas para responder uma única pergunta: 

Qual foi o acontecimento mais importante no mundo da música em 2023?

As respostas comprovam que 2023 foi, de fato, um ano com muitos assuntos importantes para o mercado musical. Confira:

 

ANDRÉ IZIDRO, CEO e Co-Fundador da Atabaque


"Para mim, um dos assuntos mais debatidos no mundo da música em 2023 foi AI e possíveis impactos na indústria, na criação ou recriação de vozes, criação de músicas em volume, direitos etc. A canção ‘Heart On My Sleeve’ que ganhou vida artificialmente nas vozes de Drake e The Weeknd, sem dúvida foi o ponto áureo sobre AI na música e estopim para importantes debates.

Porém, o acontecimento mais importante que eu considero é o movimento de aquisições e organização de modelos de distribuidoras, agregadoras e gravadoras. Depois de 7 anos de crescimento ininterruptos pautados principalmente pelo modelo de assinatura nas DSPs, as distribuidoras e agregadoras, que ganharam destaque por serem muitas, cada uma com sua peculiaridade e/ou regionalização, e que são basicamente tecnologia que facilita a lógica de publicação e gestão de músicas nas DSPs, serão adquiridas e cada vez mais integradas de forma estratégica em grandes corporações.

O fato de a Sony estar no Brasil com 5 companhias/modelos diferentes "independentes", Sony, Som Livre, The Orchard, AWAL e, recentemente, com a aquisição da Altafonte, ao mesmo tempo em que a Universal integra a Ingrooves e a Virgin como braços de distribuição do grupo são, a meu ver, marcos dessa reflexão e tendência de aquisições, definições de modelo e consolidação de mercado."


ALAN LOPES, A&R da Som Livre



"O acontecimento mais significativo na música em 2023, em minha opinião, foi mais um passo no descolamento da relação entre charts e premiações. No decorrer deste ano, grandes premiações, como o Prêmio Multishow e o Latin Grammys, deram passos importantes, ainda que discretos, para esclarecer o papel de uma premiação, destacando que a música e a arte transcendem aspectos meramente quantitativos. No contexto brasileiro, a presença de novos artistas, como Hodari, Luthuly, Àttooxxá, Xênia França, e de renomados, como Planet Hemp e Gaby Amarantos, entre os indicados e vencedores do Latin Grammy de 2023 lançou uma luz sobre segmentos, músicas e álbuns que nem sempre alcançam a notoriedade merecida no momento de seu lançamento. A vitória de Melly como artista revelação no PMSW23 foi igualmente uma conquista significativa que traz também uma luz gigante para a música contemporânea brasileira no mercado. Esses passos são um avanço, destacando e proporcionando visibilidade à qualidade e expressão artística da música, gerando oportunidades, não apenas com base em critérios quantitativos ou de voto popular. Embora os charts sejam relevantes, não são imperativos. Eles refletem muito sobre o consumo e preferências do público no presente, mas a música é uma forma de arte muito mais abrangente. Esteja ela no chart ou não, continuará a emocionar e a exercer um impacto criativo, cultural e social significativo em todos nós"


ANITA CARVALHO, diretora do Rio Music Academy e empresária artística 



"Para mim, a notícia mais importante do ano foi a de que Deezer e Universal Music avançaram no modelo de remuneração user centric para o streaming, chegando a dobrar a remuneração para músicos profissionais e valorizando as músicas escolhidas pelos usuários ao invés das distribuídas por algoritmos.  Sabemos que o mercado da música enfrenta uma grave distorção econômica, uma vez que o custo da produção musical dificilmente consegue ser recuperado com as receitas de streaming (na maior parte dos casos os artistas contam com as receitas de shows ao vivo como receitas principais). Portanto, essa notícia representa no mínimo o reconhecimento de que mudanças - ainda que lentas - são necessárias". 


BRUNO MARTINS, dono da Milk Music, co-fundador da Shake Music e membro do board da ABMI




"Este foi um ano de muitas movimentações no mercado, desde grandes mudanças na monetização de plataformas de streaming até aquisições a nível global acontecendo, especialmente por parte das majors. Isso mostra, sem sombra de dúvidas, um mercado aquecido. Porém, ao mesmo tempo, exige atenção aos players independentes, que devem se manter unidos para ter força e conquistar espaço no mercado. Esse tem sido o foco da minha atuação dentro da ABMI, na elaboração de projetos com este intuito.

Tendo dito isso, não poderia deixar de citar como um grande acontecimento para o ano de 2023, a criação do Play de Ouro, certificação da ABMI em homenagem às músicas e álbuns de artistas independentes. Alguns nomes importantes como Marisa Monte, Maria Bethânia e João Donato (ainda em vida) receberam e comemoraram as certificações este ano, mas ainda há um longo caminho pela frente para popularizar essa certificação, que é uma conquista do independente."


DANI RIBAS, doutora em Sociologia pela Unicamp, especialista em Comportamento de Público e Music Business e fundadora da Sonar Cultural.



"Começando no nacional, a coisa mais significativa foi o lançamento do Circuito Amazônico de Festivais, que aconteceu no Festival SeRasgum em Belém (PA) em novembro. Considerando o diagnóstico que envolve eventos ao vivo (a proliferação de festivais de agência fagocitando festivais de desenvolvimento de cenas locais; o descompasso entre cachês e orçamentos de festivais; o preço absurdo de passagens aéreas etc), e considerando os eventos extremos que escancaram a crise climática global, unir a música à causa ambiental é uma grande - e necessária - inovação. Oito Festivais independentes (ou de desenvolvimento de cena local) fazem parte do circuito: Varadouro (Rio Branco, AC); BR 135 (São Luís, MA); Calango (Cuiabá, MT); Quebramar (Macapá, AP); Se Rasgum (Belém, PA); Tomarrock (Boa Vista, RR); Até o Tucupi (Manaus, AM); e Casarão (Porto Velho, RO). O lançamento de um circuito de festivais representa a necessária vinculação entre música e causas coletivas, em que os festivais compartilham entre si as respostas aos obstáculos comuns. 

No cenário internacional, o mais significativo do ano de 2023 foi a tentativa de Uruguai e França enfrentarem as assimetrias econômicas que as plataformas de streaming causam em seus mercados locais. Cada um a seu modo (Uruguai regulamentando o recebimento de Direitos Autorais, e França taxando o Spotify para financiar o Centre National de la Musique, agência que elabora as políticas públicas para o setor da música), esses países deram início a uma tendência irreversível, que carrega um diagnóstico cada vez mais claro: o de que essas plataformas distorcem a lógica da produção em favor da lógica da distribuição (historicamente concentrada e monopolista), com ônus sérios a toda a cadeia produtiva da música. (Há quem discorde desse diagnóstico, e respeito tais opiniões. Já escrevi sobre isso aqui mesmo neste artigo do site da UBC). Faz sentido gravadoras majors e agregadoras discordarem desse diagnóstico. A novidade aqui - e por isso é algo que considero muito significativo em 2023 - é que governos começaram a perceber isso como ameaça grave ao seu sistema cultural, e começaram a agir concretamente para minimizar as distorções causadas pelo modelo de negócio das plataformas digitais, especialmente o Spotify. Aqui temos uma inflexão importante nessa discussão, que deveria inspirar outros governos, como o brasileiro, a protegerem seus ecossistemas musicais da concentração e distorções causadas pelo modelo de negócio das plataformas."

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