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  • Foto do escritorHebert Silva Araújo

SPOTIFY COMEÇA A PUNIR ARTISTAS ADEPTOS DE STREAMS ARTIFICIAIS

Ação deve atingir também distribuidoras digitais; especialistas comentam o crescente mercado de fraudes no setor




Entre 2021 e 2023, o número de novas músicas que chegam às plataformas digitais diariamente pulou de 40 mil para cerca de 120 mil. Essa competição avassaladora por plays fez com que muitos artistas contratassem serviços que violam as políticas de uso das empresas. 

Duas práticas fraudulentas se destacam atualmente: a compra de espaço em playlists de curadores independentes (listas não ligadas ao time editorial das plataformas) e a manipulação de plays, também chamados de streams artificiais, que inflam falsamente o número de vezes que uma faixa foi escutada. 

O fenômeno acontece especialmente no Spotify, a plataforma de áudio mais popular do mundo atualmente. Embora as fraudes no streaming não sejam novidade, o assunto voltou à tona na semana passada, quando começaram a circular histórias de artistas que haviam recebido uma 'cartinha' do Spotify. 

Nela, a companhia sueca explicava que havia detectado plays ilegítimos no perfil daquele artista. Há casos de bandas que tiveram suas músicas apagadas da plataforma, e seu perfil de artista, deletado. Outros músicos viram seus ouvintes mensais caírem para zero, o que, na prática, significa que o Spotify não está mais recomendando para seus usuários as faixas daquele artista. A empresa também alerta que não haverá pagamento de royalties para músicas em que plays falsos tenham sido registrados. 

Vinicius Soares, dono da agência de consultoria de marketing e negócios para músicos Palco Digital, teve acesso ao email que o Spotify enviou para artistas e revelou seu conteúdo num vídeo publicado em seu canal no YouTube no último dia 1º. Ele relata ter recebido "uma enxurrada de mensagens no WhatsApp" de artistas "desesperados". Todos haviam recebido o mesmo email do Spotify. 

Na carta, a empresa começa dizendo que "níveis significativos de streaming artificial foram detectados em sua música. Isso pode ter acontecido como resultado da contratação de um serviço de streaming artificial para impulsionar as transmissões, ou da contratação de um serviço de marketing digital aparentemente legítimo que, na verdade, envolve streaming artificial.”

Mais à frente, a empresa reitera que "proíbe estritamente streaming artificial, incluindo o uso de qualquer serviço de terceiros que prometa streams ou colocação em qualquer playlist, incluindo playlist de usuário, em troca de dinheiro.”

Em conversa com a UBC, Vinicius Soares - que também é professor do curso Música & Negócios da PUC-Rio - vê uma subida de tom do Spotify na caça às fraudes:

"Percebo uma nova frente de ação agora. O Spotify já possui um canal de denúncias e sempre expôs sua política de uso, mas é perceptível que, depois da formação da Music Fraud Alliance, isso ganhou força.” 

Ele se refere à iniciativa criada há cerca de um ano por um grupo de empresas como Believe, Downtown, Distrokid, Amazon Music e o próprio Spotify. Juntas, elas lançaram uma campanha contra fraudes no streaming. Chamada de Music Fraud Alliance, a força-tarefa reunia grandes players da indústria para "erradicar" a fraude nas plataformas. Mesmo com esses esforços, Vinicius Soares diz que há "um grande mercado dentro e fora do Brasil, que se camufla em serviços aparentemente inofensivos, mas, que trazem um grande prejuízo aos artista".

Segundo o especialista, há principalmente três práticas que vêm ganhando força no submundo brasileiros de plays:

>> Serviço de Recomendação. "São sites que pagam a qualquer tipo de pessoa para dar plays em músicas que lhe são apresentadas aleatoriamente com uma chamada para ação de “Ganhe Dinheiro Ouvindo Música”. Muitos mencionam serem licenciados pelo Spotify para a tal prática. Interessado por esse dinheiro, o público adquire um acesso pago na promessa de ganhar recompensas financeiras a cada play realizado. Boa parte desse público ouvinte é enganada aqui também. De outro lado, artistas e empresas prestadoras de serviço de marketing submetem músicas para estes apps. Normalmente são abordados diretamente por seus representantes e pagam uma taxa para isso. O serviço também recebe dinheiro através de publicidade via Google Adsense em banners de seus redirecionadores de links.”

>> Grupos de Engajamento. "São grupos no Telegram que possuem centenas de milhares de integrantes que recebem tarefas (após pagamento) para interagirem com músicas, playlists e perfis de artistas.” 

>> Inserção em playlists. "São alguns serviços que prometem intermediar o contato entre curadores de playlists e artistas. Paga-se uma taxa ao serviço para que sua música seja analisada e inserida em uma playlist. Apesar de expressarem que não há garantia de que a referida música será contemplada, isso sempre acontece. Parte do dinheiro é distribuído ao curador pela inserção, prática que por si só fere a política de uso do Spotify. O artista paga para ter sua música inserida em uma playlist repleta de plays artificiais.”

É provável que a maioria dos artistas que optam por manipular a sua audiência na plataforma é independente, ou seja, não está ligada a um selo ou gravadora nem tem grande popularidade. Mas não é impossível que nomes mais conhecidos da cena acabem caindo nessa armadilha.

"Conscientemente, acho difícil. Mas seria possível acontecer através de seus prestadores de serviço de marketing, sem que eles saibam. Aliás, muitos artistas independentes estão sendo penalizados por esse motivo: contrataram um prestador de serviços que ‘inflaram' seus resultados com plays artificiais sem seu conhecimento. A conta chegou agora", diz Soares.

O joio e o trigo

Sob anonimato, um músico relatou à UBC sua experiência de compra de espaço em playlists não editoriais. Ele foi abordado após participar de um curso que prometia ensinar como oferecer sua música para curadores de playlists “independentes":

"A agência não me garantiu um número exato de plays, e sim uma expectativa. Em termos de número de plays, funcionou. Na época, só não continuei pagando por uma questão financeira mesmo.”

Ele diz que não sabia que a prática era proibida.

Nas redes sociais, é fácil encontrar dezenas de perfis que afirmam promover faixas no Spotify. Rodrigo Drew, empresário e especialista em marketing musical, vende no Instagram uma mentoria que promete "o caminho para chegar a mais de 100 mil plays em 90 dias através de fãs reais". Embora a chamada atraia a atenção, Drew diz que o seu Método para Viver de Música (MPVM) é legítimo.

"O processo de trabalho que leva a esse resultado (acontece) a partir da construção de base de fãs. De nada adianta um artista dominar várias ferramentas de marketing ou até mesmo injetar milhares e milhares de reais em divulgação. Se ele não tiver o fã ao seu lado, vai ficar difícil fazer shows, vender merchan, enfim, expandir a sua carreira", diz.

Para Rodrigo Fuji, músico, consultor de marketing digital musical para grupos como Barbatuques e Tiquequê, o artista deve desconfiar de profissionais que prometem números irreais:

"É importante não entrar em estratégias ancoradas só em números, e que não levam em conta o crescimento e o posicionamento do artista no digital", explica. 

Outra ação que o Spotify promete realizar para coibir este tipo de problema é punir as distribuidoras cujas faixas recebam plays considerados ilegítimos. Isso pode fazer com que as empresas passem a analisar o histórico dos artistas antes de aceitá-los em suas plataformas.

"Acredito que haverá maior cuidado (as distribuidoras) no acompanhamento do pós-lançamento dos fonogramas, com tecnologia capaz de identificar o streaming artificial, além da denúncia da prática às plataformas o mais rápido, para evitar a fraude financeira principalmente. Ao mesmo tempo, deverão punir com rigor os artistas que utilizarem tal prática, talvez até com a exclusão permanente", diz Vinicius Soares. 

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