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  • Foto do escritorHebert Silva Araújo

RICK BONADIO: 'NÃO DÁ PRA FICAR TORCENDO PRA INDÚSTRIA SE ADAPTAR A VOCÊ'

Num papo com a SilvaMusicRecords, o polivalente profissional que ajudou a forjar o mercado contemporâneo brasileiro fala dos 25 anos da Midas Music.




Há 25 anos, Rick Bonadio abria as portas de um, a princípio, despretensioso estúdio de gravação independente em São Paulo. O CD era a mídia dominante, mas a crise da pirataria ganhava força; o streaming ainda não havia nascido comercialmente; e coisas como metaverso e inteligência artificial eram papo de meia dúzia de pesquisadores de instituto de tecnologia gringo. De lá para cá, aquele estúdio virou o Midas Music, uma empresa 360 que grava, produz, agencia e divulga talentos, além de educar o mercado através de oficinas e cursos. É a espinha dorsal atual dos negócios de um produtor e empresário que tem a enorme adaptabilidade como sua maior arma.

“A transformação do mercado virou uma coisa urgente, em contínua evolução. Não dá pra ficar olhando e torcendo pra indústria se adaptar a você. Você é quem tem que ser ágil e se adaptar, inovar. Ou vai desaparecer”, resumiu, em entrevista por telefone, este executivo paulistano de 54 anos que começou sua carreira na década de 1980 como músico e engenheiro de som, teve uma dupla de rap (Rick & Nando), dirigiu a extinta sucursal da Virgin no Brasil e criou um selo (Arsenal Music, depois vendido à Universal) que foi o epicentro da cena emo, revelando bandas como Fresno, NxZero, Tihuana e CPM22. 

Não que lançar talentos fosse novidade para ele nos anos 2000. Já desde a década anterior, Rick Bonadio demonstrou ter olho clínico para o novo, para o vendável, e esteve por trás do megafenômeno Mamonas Assassinas e também do Charlie Brown Jr. 

“Até hoje (descobrir e lançar talentos) é uma das coisas que mais gosto de fazer”, afirmou o diretor-executivo do Midas Music. 

Isto e mais ele contou no papo com a UBC:

 

E lá se foram 25 anos...

E estamos trabalhando como sempre. Ainda bem. Foram muitas mudanças, né? Comecei no vinil, e a gente veio parar no streaming. Da passagem para o CD, que foi uma euforia muito grande de mercado, começaram a aparecer as plataformas piratas de streaming. Vi a queda da música, a dificuldade extrema das gravadoras. O Midas surgiu em 1998, como um estúdio, e ponto. Alugávamos comercialmente para quem quisesse vir gravar algo. Mas, de 1999 a 2001, eu trabalhava na Virgin como diretor-geral e peguei o auge da crise. Saí, pedi demissão, justamente para montar uma empresa em que eu pudesse empresariar os artistas e ter a parte editorial. Era a Arsenal. Todas essas mudanças serviram para fazer a gente aprender que não dá pra ficar olhando e torcendo pro mercado se adaptar a você. Você é quem tem que ser ágil e se adaptar, inovar. Ou vai desaparecer. 


Hoje está completamente sedimentada a visão 360, da empresa que produz, grava, distribui, agencia, divulga... Mas você foi um pioneiro nisso.

Acho que o meu segredo foi sempre estar ligado no que acontecia no mercado. Para sobreviver, é preciso estar apto a fazer um pouco de tudo. Embora eu goste muito de trabalhar o estúdio, a parte de som, eu via que o dinheiro vinha por muitos caminhos para o mercado da música. Acreditava que a gente devia dar oportunidades para novos artistas e investir neles. Eu pegava quem achava legal, usava horários ociosos e gravava essas pessoas em quem acreditava. Encontrei Mamonas e Charlie Brown numa dessas. Continuo fazendo isso, até hoje é uma das coisas de que mais gosto.


O método para descobrir talentos é que mudou demais, não? A era digital trouxe uma superexposição de novos artistas que pode inclusive ser sufocante...Eu sempre fui antenado com a tecnologia, muito por essa origem de estúdio, de engenheiro de som. Sempre fui muito voltado para isso. Quando começou a surgir a internet, eu pesquisava, estudava. Então, foi natural a transição da fita demo para as redes sociais. Nos anos 2000, criei uma comunidade no Orkut pra galera mandar coisas. Procurava em blogs, redes sociais. E essa presença nas redes foi se alimentando por artistas que deram certo. À medida que os artistas em que apostei começaram a fazer sucesso, não precisei mais ir prospectar pessoalmente. Começaram a vir. Fiz o primeiro “Pop Stars”, o primeiro reality musical, no SBT, em que formamos o Rouge. Isso me deu visibilidade e ajudou a manter o Midas vivo.Mas bem antes do Midas você já estava revelando artistas...

A ordem é mais ou menos assim: o meu começo como empresário foi com o Bonadio Produções, na Serra da Cantareira. Foi lá para o final dos anos 1980. Em 1995, descobri os Mamonas. Em 1998, abri o Midas, como estúdio de gravação por aluguel, como já comentei. Aliás, a história do nome é engraçada. Um dia, já com o o sucesso dos Mamonas e do Baba Cósmica, um jornalista do “Estadão” veio me entrevistar. E colocou no jornal “Rick Bonadio é o novo midas da música”. Eu não sabia o que era midas (risos). Disse “esse fdp está me zoando, né?”. Aí fui pesquisar e vi que era um rei que tocava as coisas e as transformava em ouro. Nome perfeito para um projeto. Ficou. 

Depois de montar o estúdio, fui para a Virgin, fiquei até 2001. Aí montei a Arsenal, onde lançamos todo o emo, NxZero, Fresno. Vendi a gravadora para a Universal, e cinco anos depois saí de lá. Isso foi em 2011. Foi então que peguei o estúdio Midas e o transformei na empresa 360 que eu queria, o Midas Music.


Como tem se preparado para os próximos desafios? Um potencial fim de ciclo do streaming, as oportunidades e os problemas trazidos pela inteligência artificial...

O streaming tem grandes limitações. Todo mundo acha que é artista, não tem filtro. E potencializou a música como um coadjuvante de produtos audiovisuais. A música já não é protagonista, ela é parte de uma experiência. E essa experiência vai migrar, se não agora, com certeza no futuro, para o mundo virtual, com o metaverso. Precisamos ficar atentos para explorar as possibilidades, o que sairá ali: se haverá uma quebra de ciclo e a música voltará a ser protagonista ou se continuará como acessória da imagem. 

E tem, claro, a inteligência artificial. Não tenho nenhum medo dela, zero. Pelo menos por enquanto, é muito ruim para entreter, zero qualidade artística. Ela, inclusive, vai ser uma oportunidade incrível para diferenciar quem for mesmo artista de verdade, num mar de produção e gravação e distribuição de conteúdos. Pelo menos no modelo atual, deve ter vida curta. Pode ser que venha algo muito diferente. Mas, qualquer que seja o cenário, basta usar a tática mais antiga e certeira que eu conheço: ir atrás da criatividade, do talento verdadeiro, do novo, do discurso interessante. A criatividade é sempre o caminho. É isso que vai fazer o nosso mercado continuar a existir.

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